A Copa e o Mundo

A Copa e o Mundo
Por Xaba, 04/07/2014
Inspirado no artigo Prisioneiros do Éden de Steven Brown (anexado abaixo).

Enquanto escrevo, ouço ao longe gritos e ruídos de TVs que transmitem o jogo do Brasil nesta Copa do Mundo. Isso me leva a recordar um pouco das manifestações que ocorreram em Junho de 2013 e de inúmeras pessoas que saíram às ruas para questionar a Copa do Mundo e levantar diversas outras reivindicações. Mesmo que eu seja brasileiro e que eu adore a cultura e o povo brasileiro, acredito que manifestações de nacionalismo tendem a ser estimuladas como mais uma ferramenta para a manutenção do controle e do “bem estar social”.

Diante do cenário atual, reflito como é impressionante o poder de comoção alienante de uma Copa do Mundo. O que foi dito, sonhado, questionado e idealizado a uma ano atrás, parece que não importa mais. O importante é, na maioria das vezes, chegar em casa o mais rápido possível para preparar o ambiente com a maior tela possível.

Sabemos que o orçamento dos estádios foram muito maiores do que eles realmente poderiam custar. Sabemos que houveram várias manobras políticas que geraram caixas 2, 3, 4, 5… Sabemos que várias pessoas perderam as suas casas e que esta Copa, mais uma vez, deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres… e ainda assim, muitas pessoas que possuem ampla clareza política e pensamento crítico nem sequer parecem se dar conta disso.

Como disse Steven Brown no seu artigo Prisioneiros do Éden: “‘Verdades’ diferentes, mas nós as aceitamos. Nós, como uma sociedade, aceitamo-as”. Então ele continua: “Como Orwell disse, nós ‘pensamos duas vezes’: sustentando duas ‘verdades’ incongruentes nas nossas cabeças sem perceber como isso é insano. Não acreditamos nelas de verdade, não sabemos realmente em que acreditar. ‘Pensar duas vezes’ torna a vida mais fácil, e não é isso o que importa na vida?”.

Assim, as pessoas de um modo geral tendem a não se dar conta das suas constantes incoerências, pois isso torna as suas vidas mais fáceis. Em um sistema tão afastado da natureza e rodeado de necessidades desnecessárias, ser incoerente tende a “normalidade”, como um estado essencial para a sua própria sobrevivência… não que isso não interfira na sobrevivência alheia. Assim, a incoerência tende a tornar-se um mecanismo psicológico recorrente de autodefesa.

Eu mesmo, tenho uma conta no banco, uso roupas, acessórios e eletroeletrônicos que vieram do outro lado do planeta e que foram produzidos por trabalho escravo. Além disso, tenho utilizado serviços de Internet que captam todas as minhas informações pessoais para a otimização da eficiência de campanhas agressivas de publicidade que estimulam o consumo insustentável de forma quase generalizada. Somos menos ou mais coerentes, dependendo de nossas escolhas.

O que isso tem a ver com a Copa e o Mundo? Somos o que pensamos e o Mundo é o que escolhemos. Eu não escolho a Copa do Mundo, mas sim, o próprio Mundo, pelos momentos que vivi nos protestos ocorridos em Junho de 2013, como um reflexo de um movimento global desencadeado pelo descontentamento de inúmeras pessoas em relação ao nosso Mundo atual. Mesmo assim, eu posso me permitir ser incoerente de forma consciente a qualquer momento, pois, afinal de contas, isso torna a minha vida mais fácil. Mas afinal, até que ponto nós externalizaremos os impactos das nossas incoerências em relação à “sobrevivência” do Mundo? E das gerações futuras? Pequenas escolhas, grandes impactos. Até quando a borboleta sustentará o seu bater de asas? A escolha é nossa.

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O artigo abaixo foi retirado das últimas páginas do suplemento Livro do Jogador do jogo de RPG Mago: A Ascenção, 2ª Edição, lançado nos Estados Unidos em 1996. Para que você tenha uma leviana compreensão do cenário deste jogo, imagine que os Magos são como os “despertos” ou “rebeldes” e a Tecnocracia são como os “agentes” e antagonistas no filme Matrix. Uma curiosidade é que este jogo foi uma grande fonte de inspiração para o filme Matrix.

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Prisioneiros do Éden
Por Steven Brown

“O rosto olhou para ele, pesada e calmamente, protetor. Mas que tipo de sorriso estava escondido por trás daquele bigode negro? Como sinos de bronze, as palavras vieram a ele:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA”
– George Orwell, 1984

Sou uma marionete da mídia, assim como o resto de vocês (até mesmo vocês, Góticos “tragicamente legais”, que foram manipulados para comprar os nossos produtos. Ei, ninguém é inocente…). Simplesmente não podemos viver no mundo moderno sem sofrer alguma manipulação psicológica. Ainda assim, apesar dos ataques da publicidade, eu acredito que gastei meu dinheiro onde eu realmente queria gastá-lo.

Eu sou um nome e um número nos bancos de dados das corporações e do governo, assim como o resto de vocês. Usamos números para praticamente todos os negócios que fazemos uns com os outros. Mas eu ainda acredito na individualidade.

Eu vejo o noticiário na televisão e leio o jornal, e normalmente aceito as notícias como fato sem questioná-las, assim como quase todo mundo. Ainda assim, eu sei que os meios de comunicação manipulam as informações para servirem aos seus patrocinadores e outros que detêm o poder.

Eu sei que o meu país é o maior país da Terra e que ele apóia a liberdade e a justiça para todos, assim como… bem, um monte de você sabe o quê. Ainda assim, eu sei que o governo apóia grupos de interesses especiais, participa de atividades ilegais e virtualmente todas as posições mais importantes são ocupadas por ricos. (Já tivemos um presidente pobre? E que tal um senador pobre?)

Eu me entretenho com a violência. Eu vejo Beavis and Butthead, jogo Mortal Kombat e leio vários livros e histórias em quadrinhos violentas. Ainda assim, eu sei que a violência está assolando nossa sociedade e que devemos pará-la antes que seja tarde demais.

Eu amo aqueles comerciais com mulheres seminuas, lindas e malhadas que me pedem para comprar os produtos de determinadas companhias. Por que não? Mas espere aí, eu sei que as mulheres não deveriam ser tratadas como objetos sexuais. Certo?

Eu dirijo um carro e compro inúmeros produtos não recicláveis porque acho que não há problema em fazê-lo. Ainda assim, eu considero terrível a destruição do meio ambiente num nível tão grande que provavelmente nunca poderá ser recuperado.

Eu sou registrado com um RG, um certificado de alistamento militar, um censo e assim por diante. Eu uso um cartão de crédito, embora saiba que estou fornecendo àqueles que o administram uma descrição dos meus hábitos de compra. Ainda assim, eu sei que muitas das informações podem chegar, e provavelmente chegam, nas mãos das pessoas erradas.

Eu compro produtos testados em animais e também como carne. Não há nada de errado com isso, há? Contudo, eu odeio a crueldade com os animais mais do que praticamente qualquer coisa, e eu adoro o meu cachorro como se ele fosse uma pessoa.

“Verdades” diferentes, mas nós as aceitamos. Nós, como uma sociedade, aceitamo-as. Como Orwell disse, nós “pensamos duas vezes”: sustentando duas “verdades” incongruentes nas nossas cabeças sem perceber como isso é insano. Não acreditamos nelas de verdade, não sabemos realmente em que acreditar. “Pensar duas vezes” torna a vida mais fácil, e não é isso o que importa na vida?

Parecemos vítimas complacentes. Como viciados em drogas, pensamos ter o controle sobre nossas vidas, mas não temos. A programação mental com a qual somos bombardeados a cada dia nos enche de ilusões de um mundo de certa forma perfeito onde somos indivíduos com vontade própria vivendo numa sociedade democrática. Quando reclamamos sobre todos os nossos problemas, assim que terminamos, nós nos viramos e continuamos a nos comportar como eles nos treinaram. Os únicos problemas que temos são aqueles nos quais a mídia opta por concentrar-se.

Isso é progresso? Estamos minimamente conscientes do quanto somos manipulados pelos poderes que existem? Não percebemos quantos de nós desistiram? Abraçamos esta era maravilhosa com todos os milagres que ela tinha para nos oferecer: uma vida mais longa, saneamento básico, super tecnologia e conveniência, junto com todos os produtos ou serviços comercializados em massa. E o preço? Você diz, “Ah, não é alto, apenas nossa individualidade, nossa identidade, liberdade, energia, crenças e dinheiro.” Mas não se preocupe, você nunca vai saber disso, ou pelo menos nunca vai se preocupar (porque eles não dizem que você precisa se preocupar).

E daí se nossa tecnologia pode criar máquinas para trabalhar e funcionar como operários humanos, só que melhor? E daí se as empresas querem transformar seus empregados em conformistas parecidos com máquinas? E daí se gastamos bilhões de dólares cada ano testando comidas sem gosto e produzidas em massa que são nocivas para nossa saúde? E daí se ficamos hora após hora na frente da televisão vendo comédias e programas policiais preparados para espectadores com um Q.I. de samambaia de plástico? E daí se damos todos os tipos de informações sobre nossas vidas para estranhos quando preenchemos formulários para isso ou aquilo? E daí se não sabemos o que eles fazem com toda essa informação, ou se acreditamos em tudo que a mídia nos conta, ou se corremos para comprar um produto apenas porque vimos só nesta semana uma dúzia de comerciais sobre ele?

E daí? Isso é progresso. Certo? A vida não é muito melhor desta maneira? Afinal de contas, não nos ensinaram que é assim? Talvez vivamos numa era fria e impessoal, onde preferimos a conveniência e o conformismo ao livre arbítrio. A questão é, o que estamos dispostos a fazer? O que podemos fazer?

O que isso tem a ver com Mago? Esta é a pergunta que você está se fazendo, não é? Bem, se a Tecnocracia existisse, o mundo ao que rodeia cada um de nós, os “Adormecidos”, seria de algum modo diferente do que é hoje em dia?

Sim, Mago é um jogo de faz-de-conta. Mas sabemos que grupos tão conspiradores, manipuladores e egoístas quanto a Tecnocracia poderiam estar cuidando de nós, guiando nossas vidas. Há mentiras no horror real que nós, os “Adormecidos”, deveríamos considerar.

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Shaba Piffer

Shaba Piffer is a consultant, facilitator and designer of regenerative, aware and disruptive groups and projects for innovation and systemic sustainability. Master of Physics, eco-entrepreneur, permaculturist, international multiplier of Dragon Dreaming, Transition Network and Gaia Education, also has a background in Sociocracy, Non-Violent Communication, Circular Processes, Art of Hosting, Appreciative Inquiry and Insight Seminars (IV), has participated also in Warrior Without Weapons (Oasis Games), Germinar and WYSE International Leadership programs. He has already facilitated dozens of Dragon Dreaming courses and projects in several countries in Latin America and Europe.

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