Vulnerabilidade e Realidade: Bobeira é não viver a Vulnerabilidade…

Vulnerabilidade e Realidade: Bobeira é não viver a Vulnerabilidade…
Por Xaba, 20170615
https://pokaya.wordpress.com/2017/06/15/vulnerabilidade-e-realidade/

Por mais que eu busque ser sincero e vulnerável de forma integral, a todo tempo e com todas as pessoas (Ei! A intenção pode não corresponder à realidade!), tenho a sensação de que a vulnerabilidade tende a ser distorcida, confundida e associada à fraqueza pela maioria das pessoas, inclusive pelas pessoas que acredito terem clareza à respeito do conceito de vulnerabilidade.

Eu costumo transitar por ambientes onde a cultura ganha-perde tende a ser a cultura dominante ou vigente. A cultura ganha-perde é baseada na crença da escassez, onde não há o suficiente, não há alternativas e mais é melhor, como uma consequência do sentimento de medo. Crença pode ser entendido como aquilo no qual eu acredito que seja ou não possível existir ou acontecer. Uma crença tende a influenciar diretamente em nossos padrões de pensamento e comportamento. Na cultura ganha-perde as pessoas tendem a competir mais do que colaborar entre elas, pois o sentimento de medo está muito presente. Da mesma forma, na cultura ganha-perde a vulnerabilidade tende a ser distorcida, confundida e associada à fraqueza ao invés de ser associada a um ato de coragem, fortaleza e autenticidade. Quando há ainda mais o sentimento de medo, surge a cultura perde-perde, onde todas as pessoas, ou mesmo, todo o sistema perde.

Por outro lado, de acordo com Brené Brown [1], a vulnerabilidade é a base da criatividade e da conexão humana. A conexão humana é a base da empatia e da capacidade de sentir afeto e cuidado por alguém. Com isso, acredito que a vulnerabilidade é a base de uma cultura ganha-ganha baseada na crença da abundância, onde sempre há o suficiente, sempre há alternativas e mais não necessariamente é melhor. Em uma cultura ganha-ganha, onde há mais colaboração do que competição, ao superar o sentimento de medo maximizamos a nossa criatividade e encontramos soluções para que todas as pessoas, ou mesmo, todo o sistema ganhe.

Mesmo que hajam muitas pessoas que estejam comprometidas ou com sinceras intenções de viver uma cultura ganha-ganha, ou mesmo colaborativa, suponho que hajam profundas crenças baseadas na escassez e no sentimento de medo que bloqueiam uma real e genuína valorização da vulnerabilidade na cultura ganha-perde vigente. Mesmo que uma pessoa tenha uma clareza teórica isso não garante uma prática coerente alinhada à teoria, da mesma forma que tendemos a ver sem enxergar e entender sem compreender. Há uma grande diferença entre informação, conhecimento e sabedoria.

Eis o paradoxo. Mesmo que haja uma genuína intenção de reconhecer e valorizar a vulnerabilidade, fundamental para vivenciar uma cultura ganha-ganha, tendemos a reproduzir práticas e padrões da cultura ganha-perde baseadas na crença da escassez e, na grande maioria das vezes, não nos damos conta disso. Como disse Steven Brown, ao citar George Orwell no seu artigo “Prisioneiros do Éden” [2], “(…) nós ‘pensamos duas vezes’: sustentando duas ‘verdades’ incongruentes nas nossas cabeças sem perceber como isso é insano. Não acreditamos nelas de verdade, não sabemos realmente em que acreditar. ‘Pensar duas vezes’ torna a vida mais fácil, e não é isso o que importa na vida?”. Assim fico a refletir: o que temos feito para tornar as nossas vidas convenientemente mais fácil? O mais fácil é o melhor para mim? É melhor para nós? Nem sempre o caminho mais fácil é a melhor escolha para o que acreditamos ser o melhor para cuidar de nós mesmos, cuidar das pessoas e do meio ambiente.

Quando tomamos consciência de que estamos imersos em uma cultura ganha-perde ao reconhecer e querer as qualidades de uma cultura ganha-ganha e, assim, decidimos mudar de cultura e, provavelmente, nosso comportamento, nos confrontamos com a realidade de, muitas vezes, ter que conciliar a cultura que queremos com a cultura que estamos imersos. Como exemplo, quando estamos em um período de transição de uma cultura ganha-perde para uma cultura ganha-ganha, eu costumo dizer que isso é ser ganha-ganha e estar ganha-perde.

A mudança de cultura tende a ser um processo profundo e lento, que pode começar com a tomada de consciência de que sustentamos crenças que já não queremos mais. Uma cultura tende a ser baseada em uma mentalidade formada por um conjunto de crenças que formam os nossos valores e que influenciam em as nossas decisões. Considerando que tomamos decisões o tempo todo e que nós escolhemos as nossas decisões, então o nosso conjunto de crenças tende a definir a nossa realidade. Para mudarmos a nossa realidade, um bom caminho é mudar a nós mesmos, ou seja, as nossas crenças e o nosso comportamento. Mesmo sem comunicar isso à pessoas, isso será notável e poderá influenciar e inspirar as pessoas ao redor. Exemplos concretos, práticas, tendem a ser muito mais eficientes do que palavras, ou seja, teorias. Além disso, boas práticas podem gerar boas teorias que, assim sucessivamente, podem tornar-se ótimas inspirações para novas boas práticas.

Uma forma de aproximar uma prática à uma teoria, ou seja, desenvolver um comportamento coerente alinhado a uma teoria, é vivenciar práticas onde são compartilhadas emoções fortes que nos levam a tomar consciência de crenças que sustentamos. Quando reconhecemos uma crença, temos a possibilidade de decidir se queremos continuar sustentando essa crença. O comportamento, assim como as crenças e os padrões que reproduzimos, tendem a mudar com a manutenção das práticas. Caso contrário, há uma tendência à uma adequação comportamental às respectivas crenças da cultura vigente no qual estejamos imersos.

Considerando a possibilidade de que eu esteja em uma cultura ganha-perde vigente, onde a vulnerabilidade possa ser distorcida, confundida e associada à fraqueza, acredito que seja muito importante ter o senso de ser vulnerável na medida certa, de se colocar nem menos nem mais vulnerável, dentro do que seja apropriado em relação ao contexto. Talvez o contexto ou as pessoas não estejam preparadas à receber e acolher a vulnerabilidade, ou mesmo, ainda estejam muito imersas em uma cultura ganha-perde. Neste sentido, reconhecer e acolher a própria realidade no qual nos encontramos também é um ato de coragem, fortaleza e autenticidade. Ter a intenção e buscar ser vulnerável de forma consciente e acolhedora de acordo com o contexto torna-se uma arte, uma dança entre o amor e a dor, ao passo que, pouco a pouco e cada vez mais, poderemos chegar em um lugar onde a vulnerabilidade seja realmente reconhecida e acolhida por todas pessoas envolvidas em um certo contexto.

REFERÊNCIAS

[1] Brené Brown, TED: O poder da vulnerabilidade, https://www.ted.com/talks/brene_brown_on_vulnerability?language=pt

[2] Steven Brown, Prisioneiros do Éden, https://pokaya.wordpress.com/2016/04/19/a-copa-e-o-mundo/

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One thought on “Vulnerabilidade e Realidade: Bobeira é não viver a Vulnerabilidade…”

  1. Muito interessante.
    Fiquei pensando sobre nossa aparente segurança alimentar, onde o mercado ocupa o lugar das práticas dá busca, onde o cômodo substitui a conquista, mas é uma crença, pois estamos mais vulneráveis, mais dependentes, mais expostos.

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